A contradição portuguesa: pedir ousadia e punir o risco

“Quando o sucesso é taxado e o falhanço condenado, o investimento transforma-se num ato de resistência.”
Portugal habituou-se a elogiar o empreendedorismo sem verdadeiramente gostar do risco.
A frase pode parecer excessiva. Não é. Basta olhar para a forma como o país continua a tratar quem investe, quem cresce e, sobretudo, quem falha.
Nunca se falou tanto de inovação, modernização, reindustrialização ou inteligência artificial. Nunca os discursos públicos estiveram tão preenchidos de palavras certas. Contudo, por detrás da retórica, permanece uma realidade menos confortável: grande parte da economia portuguesa continua assente num sistema que desconfia estruturalmente de quem produz.
O problema português já não é apenas fiscal. Nem exclusivamente burocrático. Tornou-se mais profundo do que isso. É, hoje, um problema cultural.
Portugal continua demasiado desconfortável com a ideia de risco.
Enquanto países como os Estados Unidos transformaram a capacidade de falhar numa componente natural da inovação económica, Portugal mantém uma relação quase punitiva com o insucesso empresarial. Nos Estados Unidos, um empresário que falha pode regressar ao mercado, captar novo investimento e recomeçar. O falhanço é frequentemente interpretado como experiência acumulada. Entre nós, demasiadas vezes transforma-se numa marca permanente de desconfiança financeira e institucional.
O mesmo contraste é visível na relação entre banca e economia produtiva.
Economias como a Alemanha consolidaram modelos bancários profundamente ligados à indústria exportadora, ao crescimento empresarial e ao investimento de longo prazo. Em Portugal, pelo contrário, o sistema financeiro tornou-se progressivamente mais confortável a financiar consumo, imobiliário e operações protegidas por garantias sólidas do que propriamente transformação económica.
A consequência está à vista.
A banca portuguesa apresenta hoje lucros historicamente elevados. Margens confortáveis. Resultados robustos. Ainda assim, permanece uma pergunta essencial: quanto desse conforto financeiro está verdadeiramente ao serviço da economia real?
Porque existe uma diferença enorme entre financiar consumo e financiar crescimento.
Existe, também, uma diferença substancial entre conceder crédito protegido por garantias fortes e assumir risco estratégico na economia produtiva.
Portugal precisa de bancos capazes de financiar indústria, tecnologia, internacionalização, modernização empresarial e ganho de escala. Precisa de instituições financeiras capazes de olhar para projetos empresariais com visão de médio prazo, e não apenas através da lógica defensiva do risco imediato.
Mas o sistema reage demasiadas vezes de forma inversa.
Quando a economia desacelera, o crédito retrai-se. Quando as empresas enfrentam dificuldades conjunturais, aumentam spreads, exigências e pressão financeira. Quando surge incerteza, instala-se a retração. O capital torna-se mais caro precisamente no momento em que seria mais necessário proteger investimento, emprego e crescimento.
Criámos uma economia onde se exige ousadia às empresas, enquanto o próprio sistema lhes retira margem para ousar.
E depois surpreendemo-nos com a reduzida dimensão média das empresas portuguesas.
Países como a Dinamarca ou os Países Baixos perceberam há muito que competitividade económica depende também de velocidade institucional. Licenciamentos rápidos. Administração pública digitalizada. Justiça económica eficiente. Estabilidade regulatória. Capacidade de decisão.
Portugal continua demasiadas vezes aprisionado numa cultura de lentidão administrativa que consome tempo, liquidez e energia às empresas.
A verdade é que o país se tornou demasiado caro para produzir. Não apenas pelo custo da energia, pela carga fiscal ou pela burocracia. Tornou-se caro pelo peso acumulado da demora, da instabilidade e da ausência de confiança estrutural no investimento produtivo.
Uma licença demora demasiado tempo. Um projeto arrasta-se entre pareceres sucessivos. O financiamento chega tarde. O enquadramento fiscal altera-se constantemente. E o erro, em vez de ser absorvido como parte natural da atividade económica, converte-se demasiadas vezes numa sentença financeira.