A quarta pior produtividade da União Europeia: o número que condena os salários portugueses

Portugal tem a quarta pior produtividade da União Europeia e o indicador recuou em 2025. Ao mesmo tempo, os portugueses trabalharam, em média, 37,4 horas por semana, contra 35,9 no conjunto europeu. Esta é a primeira verdade que os números impõem: o nosso problema não é falta de esforço, mas falta de valor criado por cada hora de esforço.
Em 2024, cada trabalhador português gerou cerca de 48 mil euros para o produto interno bruto, contra 74 mil na União Europeia. O salário bruto mensal ajustado a tempo completo foi de 2068 euros em Portugal e de 3317 euros na União. Os dois indicadores não coincidem mecanicamente, mas assentam na mesma base: o valor acrescentado. É ele que paga salários, remunera o capital, financia a inovação e sustenta o Estado. Quando se cria pouco, empresas e trabalhadores disputam a escassez.
Produtividade não é uma medida do valor moral de quem trabalha, nem um eufemismo para correr mais depressa. Depende de capital, tecnologia, qualificações, escala empresarial, gestão, energia, concorrência e qualidade das instituições. A lei laboral não é a causa única. Mas pode facilitar a adaptação da economia ou obrigá-la a defender o passado.
O nosso sistema continua a proteger mais o posto do que a carreira. A OCDE coloca Portugal entre os países com regras mais estritas no despedimento de trabalhadores permanentes e assinala que a compensação média fixada por despedimento ilícito ronda 20 salários mensais, com a reintegração ainda frequentemente determinada pelos tribunais. A consequência é um forte desincentivo à contratação sem termo.
O paradoxo é evidente: a rigidez não elimina a insegurança, transfere-a para quem está de fora. Em Portugal, 15,1% dos trabalhadores por conta de outrem têm contratos temporários e quase quatro em cada dez jovens trabalham a prazo. As empresas adiam contratações e reorganizações; os trabalhadores ficam presos a maus ajustamentos, com menor mobilidade e menos incentivos à formação.
A Dinamarca mostra outra possibilidade. Combina custos mais baixos de contratação e cessação, negociação salarial com ampla margem ao nível da empresa, proteção robusta no desemprego e políticas ativas de emprego. O salário mensal ajustado a tempo completo aproxima-se dos 5964 euros, quase três vezes o português. Isto não prova que a flexibilidade, por si só, crie riqueza. Prova que é possível proteger pessoas sem congelar postos de trabalho.
Portugal precisa de uma lei que favoreça o ajustamento dentro da empresa antes da rutura, reduza a incerteza e a morosidade judicial, permita reorganizar funções e tempos de trabalho dentro de limites claros e aproxime a contratação coletiva da realidade de cada setor e empresa. Em paralelo, precisa de formação contínua com resultados avaliados, direitos portáteis, proteção adequada no desemprego e serviços de reintegração eficazes. Flexibilidade sem segurança é arbítrio. Segurança sem mobilidade é estagnação.
Os salários não sobem de forma sustentável por decreto sobre a mesma base de baixo valor, nem tratando cada reorganização como uma agressão. Sobem quando as empresas investem, crescem, se especializam e partilham os ganhos de produtividade.
A produtividade não é um número frio numa folha de cálculo. É o nome escondido dos salários, das margens, da receita fiscal e do futuro. Um país que trabalha muito e produz pouco acaba, inevitavelmente, cansado e pobre.