A República da desconfiança - Quando o controlo deixa de produzir confiança e começa a produzir bloqueio

A República da desconfiança - Quando o controlo deixa de produzir confiança e começa a produzir bloqueio
A República da desconfiança - Quando o controlo deixa de produzir confiança e começa a produzir bloqueio
Portugal desenvolveu uma extraordinária capacidade para contabilizar os riscos da acção e uma notável incapacidade para reconhecer os custos da inação.

Portugal não tem apenas um problema de burocracia.

Tem um problema de desconfiança.

Durante décadas, fomos construindo um Estado convencido de que a melhor forma de proteger o interesse público consistia em dificultar a decisão. Sempre que surgia uma falha, acrescentávamos uma regra. Sempre que surgia um abuso, acrescentávamos uma validação. Sempre que surgia um escândalo, acrescentávamos mais uma camada de controlo.

A intenção era quase sempre legítima. O resultado nem sempre.

Ao longo do tempo, fomos erguendo uma arquitectura institucional cada vez mais sofisticada na sua capacidade de verificar, autorizar e fiscalizar. Como quem reforça incessantemente uma muralha sem reparar que, entretanto, deixou de conseguir abrir os portões.

O debate em torno do visto prévio do Tribunal de Contas trouxe esta realidade para o centro da discussão pública. À primeira vista, trata-se de uma divergência sobre mecanismos de fiscalização. Na verdade, trata-se de algo muito mais profundo. Trata-se da forma como o Estado português olha para o poder, para a responsabilidade e para o risco.

Porque há uma pergunta que raramente fazemos.

Quem protege o interesse público dos custos da não decisão?

Quem contabiliza os investimentos que não aconteceram, as oportunidades que escolheram outros destinos, os projectos que ficaram suspensos entre pareceres, validações e autorizações sucessivas? Quem mede o preço do tempo perdido?

A verdade é que Portugal desenvolveu uma extraordinária capacidade para contabilizar os riscos da acção e uma notável incapacidade para reconhecer os custos da inação.

Sabemos medir o preço do erro.

Temos muito mais dificuldade em medir o preço da espera.

Talvez porque o erro tem rosto, tem responsável e tem manchetes. A espera não. A espera dissolve-se nos processos, nos calendários e nos circuitos administrativos. Torna-se normal. E aquilo que se torna normal deixa de ser questionado, mesmo quando os seus custos recaem diariamente sobre a economia, sobre os serviços públicos e sobre a confiança dos cidadãos.

Foi precisamente esta realidade que Aníbal Cavaco Silva voltou recentemente a colocar em evidência ao defender uma reforma mais ambiciosa do Estado. Não porque a discussão seja nova, mas porque continua por resolver. Décadas depois, permanecemos presos a muitos dos mesmos bloqueios que sucessivos governos prometeram ultrapassar.

O argumento mais frequentemente utilizado para justificar esta cultura administrativa é o combate à corrupção.

E trata-se de um argumento sério.

A corrupção corrói a confiança nas instituições, distorce a concorrência, enfraquece a democracia e consome recursos que pertencem a todos. Combatê-la é uma obrigação permanente de qualquer Estado de direito.

Mas existe uma pergunta incómoda que merece ser feita.

Se décadas de sucessivos mecanismos de validação prévia fossem suficientes para resolver o problema, porque continua a corrupção a surgir de forma recorrente entre as principais preocupações dos portugueses?

A conclusão não é que exista fiscalização a mais.

A conclusão é que a qualidade das instituições não depende apenas da quantidade de controlo.

Um sistema pode acumular procedimentos sem se tornar necessariamente mais transparente. Pode multiplicar validações sem se tornar mais eficaz. E pode atrasar decisões sem reduzir proporcionalmente o risco que pretende combater.

As sociedades mais íntegras não são necessariamente aquelas que mais desconfiam.

São aquelas que melhor fiscalizam, melhor investigam e melhor responsabilizam.

Porque a diferença entre um Estado forte e um Estado pesado não está na quantidade de autorizações que exige. Está na eficácia com que identifica, pune e corrige os desvios quando eles acontecem.

É precisamente aqui que o debate sobre o visto prévio ultrapassa largamente a dimensão jurídica que lhe deu origem.

O que está verdadeiramente em causa não é apenas um mecanismo administrativo nem uma divergência sobre competências institucionais. O que está em causa é uma determinada visão do Estado e da forma como este se relaciona com o risco.

Durante demasiado tempo fomos alimentando a convicção de que a melhor forma de evitar más decisões consistia em dificultar a decisão. Como se a acumulação de controlos pudesse substituir a qualidade da liderança. Como se a prudência se pudesse confundir com a imobilidade.

Mas nenhuma organização humana prospera dessa forma. Nem uma empresa, nem uma universidade, nem um hospital, nem um país.

A maturidade das instituições não se mede pela sua capacidade de eliminar o risco. Mede-se pela sua capacidade de o enquadrar, de o fiscalizar e de o corrigir quando necessário. Porque a possibilidade de errar não desaparece por decreto. O que distingue instituições fortes de instituições frágeis é a forma como respondem ao erro quando ele acontece.

Talvez por isso a mais persistente fragilidade portuguesa não resida na corrupção, na burocracia ou sequer na lentidão administrativa que tantas vezes lamentamos. Talvez resida numa dificuldade mais profunda: a de aceitar que a confiança é uma condição indispensável da responsabilidade.

Ao longo de décadas aperfeiçoámos mecanismos destinados a evitar falhas. Pelo caminho, corremos o risco de esquecer que nenhuma sociedade prospera apenas porque evita erros. As sociedades prosperam porque são capazes de decidir, executar, corrigir e aprender.

O verdadeiro desafio da reforma do Estado não está, por isso, em escolher entre controlo e execução. Está em encontrar o equilíbrio que permita garantir ambos. Um Estado suficientemente exigente para escrutinar e suficientemente eficaz para agir.

Porque um país que transforma a prudência em método de bloqueio acaba inevitavelmente por descobrir que a inação também tem custos.

E que, por vezes, o atraso não resulta da falta de decisão.

Resulta da dificuldade em confiar.

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