A sociedade do aplauso não transforma
Uma sociedade não se transforma quando todos lhe dizem aquilo que gosta de ouvir. Transforma-se quando é capaz de se confrontar com aquilo que precisa de ouvir.
Vivemos num tempo em que a popularidade se tornou uma espécie de certificado de competência. Mede-se a relevância pelo número de seguidores, a qualidade de uma ideia pelo alcance de uma publicação e a capacidade de liderança pela facilidade com que alguém ocupa espaço mediático. A consequência é simples: temos cada vez mais líderes preocupados em ser reconhecidos e cada vez menos disponíveis para assumir o desconforto de transformar.
A condescendência tornou-se coletiva. Toleramos discursos vazios porque são agradáveis, aceitamos simplificações porque são fáceis de consumir e confundimos inspiração com pensamento. Em vez de exigirmos consistência, premiamos presença. Em vez de procurarmos propósito, alimentamos tendências. E, progressivamente, substituímos a responsabilidade de pensar pela comodidade de reagir.
Este fenómeno é especialmente evidente no mundo do trabalho.
Durante demasiado tempo, muitas organizações trataram as pessoas como recursos disponíveis, ignorando expectativas legítimas de realização, equilíbrio, respeito e reconhecimento. A humanização do trabalho não é, por isso, uma moda. É uma necessidade. Mas humanizar não pode significar infantilizar, eliminar a exigência ou transformar a felicidade numa obrigação corporativa.
Nenhuma empresa pode garantir a felicidade dos seus trabalhadores. Pode e deve proporcionar condições dignas, criar oportunidades, reconhecer o mérito, respeitar a diferença e construir ambientes saudáveis. Mas a felicidade é uma construção individual, complexa e variável. Quando é instrumentalizada por discursos empresariais ou mediáticos, corre o risco de se tornar apenas mais um produto de comunicação.
Há empresas que passaram a falar mais de felicidade do que de estratégia, mais de bem-estar do que de sustentabilidade e mais de propósito do que de resultados. Como se bastasse escolher as palavras certas para resolver os problemas reais. Como se a produtividade fosse incompatível com a humanidade. Como se exigir, avaliar e responsabilizar fossem práticas ultrapassadas.
Não são.
Uma organização que não produz, não cresce e não se adapta acabará por deixar de proteger os próprios trabalhadores. Não há estabilidade sem competitividade. Não há salários melhores sem criação de valor. Não há realização profissional numa empresa que perdeu a capacidade de sobreviver.
É neste contexto que surge a inteligência artificial. Provavelmente o maior fator de transformação da produtividade das últimas décadas. A sua introdução no trabalho obrigará a rever funções, competências, modelos de organização e até a forma como avaliamos o contributo de cada pessoa. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão profundamente alteradas e muitas funções que hoje consideramos indispensáveis deixarão de existir nos moldes atuais.
Esta transformação exige uma discussão séria. Mas dificilmente a teremos se continuarmos presos a narrativas mediáticas destinadas apenas a tranquilizar, agradar ou conquistar aplausos. Dizer que a inteligência artificial libertará todos os trabalhadores para tarefas mais criativas pode ser inspirador. Não significa que seja automaticamente verdade. Do mesmo modo, anunciar que destruirá inevitavelmente o emprego é uma simplificação igualmente irresponsável.
A realidade será mais complexa. Haverá oportunidades, perdas, resistência, desigualdades e necessidade de adaptação. Haverá pessoas que conseguirão utilizar a tecnologia para aumentar extraordinariamente a sua capacidade e outras que ficarão para trás. Negar este risco não é humanismo. É condescendência.
Precisamos, por isso, de perguntar que sociedade queremos construir. Uma sociedade mais justa, certamente. Mais humana, sem dúvida. Mas também mais funcional, produtiva, responsável e realista.
Não podemos querer melhores salários sem discutir produtividade. Não podemos exigir melhores serviços públicos sem avaliar a eficiência do Estado. Não podemos defender a competitividade das empresas e, simultaneamente, rejeitar todas as mudanças que a tornam possível. Não podemos falar de realização profissional como se o trabalho tivesse deixado de envolver esforço, exigência, disciplina e responsabilidade.
A utopia é importante enquanto horizonte. Ajuda-nos a definir o sentido da mudança e a imaginar uma sociedade melhor. Mas, quando se transforma num modo de interpretar a realidade, deixa de ser inspiração e passa a ser fuga. A realização não nasce de fingirmos que não existem limites, conflitos ou dificuldades. Nasce da capacidade de os enfrentar.
Também as lideranças precisam de fazer uma escolha. Podem usar a sua posição para alimentar a própria visibilidade ou para produzir transformação. Podem procurar a frase que gera mais partilhas ou assumir a reflexão que provoca mais desconforto. Podem dizer às pessoas aquilo que elas querem ouvir ou convidá-las a olhar para o espelho.
Transformar exige mais do que comunicar. Exige decidir, arriscar, contrariar interesses e aceitar que nem todas as decisões responsáveis são imediatamente populares.
Talvez seja esse o grande problema do nosso tempo. Temos demasiadas pessoas empenhadas em parecer transformadoras e demasiado poucas dispostas a suportar o custo real da transformação.
Precisamos de menos frases feitas e de mais pensamento. Menos mediatismo e mais propósito. Menos culto da personalidade e mais responsabilidade coletiva. Porque uma sociedade que procura permanentemente o aplauso pode criar tendências, alimentar egos e acumular seguidores.
O que dificilmente conseguirá é transformar-se.