Ceuta: quando a mentira passa a fronteira
A desinformação já não se limita a distorcer os acontecimentos. Em Ceuta, ajudou a produzi-los.
Ceuta não foi apenas o palco de uma crise migratória. Foi o laboratório de uma ameaça muito maior: a capacidade de uma mentira digital se transformar num acontecimento real.
Antes de dezenas de milhares de pessoas atravessarem a fronteira entre Marrocos e o território espanhol, circularam nas redes sociais vídeos e mensagens que anunciavam uma oportunidade única. Dizia-se que a fronteira estava aberta, que quem chegasse por mar não poderia ser devolvido e que Espanha tinha facilitado as regras de permanência.
A mentira, como quase sempre acontece, foi construída a partir de fragmentos verdadeiros.
Uma decisão judicial espanhola limitara as devoluções imediatas, mas não impedia o posterior repatriamento pelos procedimentos legais. Um programa de regularização tinha sido aprovado, mas aplicava-se a quem já residia em Espanha e cumpria determinados requisitos. Bastou retirar o contexto, simplificar a mensagem e acrescentar-lhe urgência.
O resultado foi uma multidão em movimento.
Segundo a Reuters, muitos dos que tentaram entrar em Ceuta foram influenciados por vídeos que mostravam travessias bem-sucedidas e por informação enganadora sobre a possibilidade de permanecer em Espanha. A esperança de milhares de pessoas foi transformada numa espécie de ordem de marcha digital.
Depois surgiu uma segunda vaga de desinformação.
As mesmas redes que ajudaram a convencer pessoas vulneráveis de que a Europa lhes abrira uma porta passaram a apresentar o caos como prova de uma invasão organizada, de uma conspiração política ou da cumplicidade deliberada das autoridades. Vídeos antigos, imagens descontextualizadas e narrativas extremadas começaram a circular a uma velocidade muito superior à capacidade de verificação dos factos.
A própria Comissão Europeia confirmou que canais russos e outras fontes alinhadas com interesses externos amplificaram rapidamente a crise depois do início das travessias. Isto não demonstra que tenham provocado o movimento inicial. Demonstra algo igualmente preocupante: as estruturas de propaganda já não precisam de criar uma crise. Basta-lhes identificá-la, ampliá-la e dirigir a indignação.
A desinformação altera comportamentos duas vezes. Primeiro, convence pessoas a arriscarem a vida. Depois, convence sociedades inteiras a reagirem com medo, ódio ou precipitação.
É possível defender simultaneamente o controlo das fronteiras, a soberania dos Estados e a dignidade humana. A Europa tem o direito e o dever de proteger as suas fronteiras externas, combater as redes de tráfico e assegurar o retorno de quem não reúne condições legais para permanecer. Mas nenhuma política migratória séria pode ser construída sobre imagens manipuladas, rumores virais ou emoções fabricadas.
Combater a desinformação não significa limitar a liberdade de expressão. Significa perceber que uma campanha coordenada de manipulação não é apenas uma opinião desagradável. Pode ser um instrumento de pressão geopolítica, de desestabilização social e de interferência política.
As plataformas digitais não podem continuar a apresentar-se como espaços neutros quando os seus algoritmos recompensam precisamente os conteúdos que provocam mais medo, revolta e divisão. Os Estados precisam de sistemas de alerta precoce, comunicação pública rápida e capacidade para identificar redes coordenadas. Os cidadãos precisam de recuperar um hábito que a velocidade digital quase destruiu: parar antes de partilhar.
Ceuta é um aviso. A próxima mentira pode provocar uma corrida aos bancos, uma emergência de saúde pública, um conflito social ou uma convulsão eleitoral.
Quando uma falsidade consegue colocar milhares de pessoas em movimento e milhões em confronto, já não estamos perante um problema de comunicação.
Estamos perante um problema de segurança.