O comércio livre morreu em silêncio

Durante décadas, acreditámos que o comércio aproximaria os países, reduziria os conflitos e criaria uma prosperidade partilhada. Não aconteceu exatamente assim.

O comércio internacional criou riqueza, retirou milhões de pessoas da pobreza e permitiu às empresas aceder a mercados antes inalcançáveis. Mas também produziu dependências, destruiu capacidade industrial e expôs a fragilidade de economias que confundiram abertura com ausência de estratégia.

Agora, as tarifas regressaram. Não apenas como instrumento económico, mas como arma política. Servem para pressionar aliados, condicionar adversários, proteger indústrias e impor interesses nacionais.

O comércio livre não morreu porque os países decidiram proteger alguns setores estratégicos. Morreu quando as regras deixaram de ser previsíveis e cada acordo passou a valer apenas enquanto fosse conveniente para a potência mais forte.

Também seria ingénuo defender uma abertura sem reciprocidade. Não existe concorrência justa quando umas empresas cumprem exigências ambientais, sociais e laborais que outras podem ignorar. A Europa demorou demasiado tempo a perceber isso.

Mas trocar regras imperfeitas pela lei do mais forte não resolve o problema. Apenas altera quem paga a conta.

As grandes potências têm dimensão para negociar, retaliar e impor condições. Os países mais pequenos limitam-se a adaptar-se às decisões dos outros. E as empresas, incapazes de planear num mundo de tarifas repentinas e acordos provisórios, adiam investimentos e transferem os custos para os consumidores.

O comércio livre prometeu que todos poderiam ganhar. A nova ordem comercial parte do princípio de que alguém terá necessariamente de perder.

O problema é que, num mundo interdependente, quase nunca perde apenas quem estava na mira.

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