Portugal cresce. Mas ainda não mudou

https://www.jn.pt/opiniao/artigo/portugal-cresce-mas-ainda-nao-mudou/18117373

Crescer acima de uma Europa quase estagnada é uma boa notícia. Transformar esse crescimento em produtividade, escala e autonomia económica é o verdadeiro desafio.

A economia portuguesa cresceu 0,8% no segundo trimestre, o dobro dos 0,4% registados pela zona euro. Portugal superou Espanha, que avançou 0,7%, e ficou claramente acima de França e da Alemanha, ambas com um crescimento de apenas 0,2%.

São boas notícias e devem ser reconhecidas. Mas um bom trimestre não constitui, por si só, uma estratégia económica. Crescer acima de uma Europa quase estagnada não significa necessariamente que Portugal esteja a transformar-se. Significa que está a avançar mais depressa num continente que continua a avançar demasiado devagar.

A economia mundial atravessa um momento difícil de classificar. Não estamos perante uma recessão global, mas também não regressámos a um ciclo de crescimento estável. Vivemos numa economia de choques sucessivos, marcada pela tensão geopolítica, pelo custo da energia, pela instabilidade das taxas de juro e por uma corrida tecnológica que está a deslocar capital, poder e capacidade produtiva.

Nos Estados Unidos, o crescimento abrandou de 2,1% para 1,5%, em taxa anualizada, ficando abaixo do esperado. Ainda assim, o consumo das famílias mantém-se como principal motor da economia e o investimento em infraestruturas tecnológicas continua a acelerar. As grandes empresas de computação em nuvem deverão investir mais de 750 mil milhões de dólares este ano.

Estes números demonstram que a inteligência artificial já não é apenas uma promessa tecnológica. É uma gigantesca operação económica, energética e industrial. Exige centros de dados, semicondutores, redes elétricas, sistemas de refrigeração, capacidade financeira e acesso permanente a energia.

Quem dominar esta infraestrutura dominará uma parte relevante da produtividade das próximas décadas.

A Europa, por seu lado, resiste melhor do que muitos antecipavam, mas continua a revelar fragilidades profundas. O crescimento europeu está hoje a ser liderado pelas economias do Sul, enquanto França e Alemanha, tradicionalmente vistas como o motor do continente, apresentam desempenhos muito modestos. A antiga periferia cresce. O antigo centro hesita.

Esta inversão representa uma oportunidade para Portugal, mas deve também impedir qualquer triunfalismo. A convergência não se mede pela comparação com um trimestre fraco dos outros. Mede-se pela capacidade de crescer de forma continuada, aumentar a produtividade, remunerar melhor o trabalho, criar empresas com escala e reter capital e talento.

A Europa permanece igualmente vulnerável ao preço da energia. Uma subida do petróleo de quase 16% numa única semana, provocada pelo agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, foi suficiente para reacender os receios inflacionistas e alterar as expectativas sobre as taxas de juro. Esta dependência funciona como um imposto geopolítico sobre as famílias e as empresas europeias.

Ao mesmo tempo, a China continua a enfrentar dificuldades em reanimar a procura interna. O mundo deixou de dispor de um único motor económico. Os Estados Unidos dependem cada vez mais do consumo e da tecnologia, a China procura recuperar dinamismo interno e a Europa tenta crescer sem resolver os seus problemas de energia, investimento e competitividade.

Portugal deve interpretar este momento com ambição, mas também com realismo. O crescimento atual tem de ser convertido em investimento produtivo, capitalização empresarial, inovação, digitalização e aumento de escala. Os fundos europeus devem reduzir dependências futuras, não financiar apenas necessidades presentes. Os licenciamentos, a fiscalidade e a burocracia não podem continuar a consumir tempo e capital às empresas que querem investir.

A Europa não recuperará competitividade apenas através de mais regulação. E Portugal não mudará estruturalmente apenas porque cresceu mais num trimestre.

A oportunidade existe. A questão é saber se estamos preparados para a aproveitar.

Crescer é notícia. Transformar é política económica.

Subscribe to Fora do Ruído

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe