Portugal executou o PRR. Falta saber quem ficou mais resiliente

A verdadeira medida do PRR não está no dinheiro que chegou ao Estado, mas na capacidade que deixou nas empresas e na economia quando esse dinheiro acabar.

Portugal executou o PRR. Falta saber quem ficou mais resiliente
A verdadeira medida do PRR não está no dinheiro que chegou ao Estado, mas na capacidade que deixou nas empresas e na economia quando esse dinheiro acabar.

Hoje termina o prazo para Portugal cumprir os marcos e as metas do Plano de Recuperação e Resiliência. O Governo espera executar integralmente as subvenções disponíveis e evitar a devolução de verbas a Bruxelas. Se esse objetivo for alcançado, será importante. Não será ainda a prova de que o PRR transformou o país.

A pergunta decisiva não é apenas quanto dinheiro Portugal recebeu. É onde esse dinheiro chegou e que capacidade económica deixou instalada.

Em 21 de agosto, o Portal Mais Transparência registava 14,34 mil milhões de euros pagos a beneficiários, cerca de 65% da dotação total de 21,9 mil milhões. Portugal já recebera da Comissão Europeia 17,23 mil milhões, 79% do plano. Cerca de 4,6 mil milhões continuarão a ser pagos durante 2027.

Mas existe outra diferença que importa conhecer: quanto financiou investimento público e quanto chegou efetivamente às empresas para aumentar a capacidade produtiva?

Os relatórios não permitem responder de forma simples à questão essencial: que parte do PRR aumentou a produtividade, reforçou as exportações ou permitiu às empresas ganhar escala?

Nem todo o investimento público é improdutivo. Transportes eficientes, escolas equipadas, serviços públicos digitais ou uma justiça mais rápida podem melhorar a competitividade. A economia não termina à porta do Estado.

O problema está em confundir investimento público com transformação económica.

O PRR destinava-se a tornar a economia mais sustentável, digital e resiliente, não apenas a financiar despesas que o Estado teria de suportar através do seu orçamento.

Quando uma verba europeia substitui investimento público que seria realizado de qualquer modo, pode aliviar o Orçamento do Estado. Não significa necessariamente que tenha aumentado a capacidade futura do país.

A diferença chama-se adicionalidade. Um investimento é adicional quando permite fazer algo que não aconteceria sem aquele financiamento, ou fazê-lo com maior dimensão, qualidade ou rapidez. Se o PRR apenas pagar uma despesa prevista, muda a origem do dinheiro. Pode não mudar o resultado.

É esta avaliação que continua por fazer. Quantos sistemas digitais eliminaram procedimentos em vez de informatizarem a mesma burocracia? Quantos apoios produziram investimento novo, exportações, produtividade ou emprego qualificado?

Mesmo a parcela destinada às empresas encontrou dificuldades em chegar aos beneficiários. Muitas tiveram de realizar despesas antes de receber os reembolsos. Houve candidaturas que demoraram mais de um ano a ser decididas e casos em que os adiantamentos ou pagamentos não chegaram a tempo dos projetos.

Isto não é apenas um atraso administrativo. Altera quem consegue beneficiar dos apoios.

Uma grande empresa pode recorrer a capitais próprios ou ao crédito. Uma pequena empresa pode não conseguir financiar salários, equipamentos e fornecedores durante meses. O apoio acaba por favorecer quem já tinha capacidade para suportar a espera.

Na prática, a empresa financia temporariamente o Estado para receber um incentivo destinado a aumentar a sua própria resiliência.

O problema agrava-se porque os prazos permanecem rígidos. O organismo público pode demorar a pagar, mas a empresa continua obrigada a executar. O atraso de uma parte transforma-se no risco da outra.

A partir de agora, Portugal deveria publicar uma avaliação que separasse investimento público, investimento empresarial, montantes efetivamente pagos e resultados produzidos.

Não basta saber quem recebeu. É necessário saber para quê, quando e com que efeito.

Deveria medir custos, capacidade produtiva, exportações, emprego qualificado e encargos futuros, identificando quanto investimento foi adicional e quanto substituiu despesa prevista.

O PRR não falha por financiar o Estado. Um país resiliente precisa de serviços públicos capazes.

Falha se o financiamento extraordinário servir apenas para adiar escolhas orçamentais, concluir obras sem impacto mensurável ou criar custos permanentes sem aumentar a capacidade económica que os sustentará.

Cumprir os marcos permite receber o dinheiro. Executar as verbas permite fechar o programa.

A verdadeira resiliência não está no dinheiro que chegou ao Estado.

Está na economia que conseguirá continuar quando esse dinheiro acabar.

Subscribe to Fora do Ruído

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe